sábado, 16 de junho de 2012


NO COLO DO VERDE VALE

Cansado. Assim sentia-se o Tempo.
- Muito mais que velho, muito além de antigo. Isto eu sou - pensava andando para a frente , ele que não conhecia outra direção.
Vasculhando o passado que trazia às costas, não encontrava o dia em que tinha começado a caminhar. Já procurara muito. Agora até duvidava que existisse esse dia, que ele, como tudo o mais, tivesse um começo. Há tanto andava, que não sabia quanto, e bem podia há outro tanto estar andando.
Lá longe, porém, na juventude - se é que alguma vez tinha sido jovem -lembrava-se de caminhar com alegria, os passos, ou a alma, leves. Ah! sim, tinha sido bom. Naquela época, certo de que o mundo inteiro era arrastado por ele, como numa imensa rede, enchia-se de orgulho e de poder.
- Eu piso com o pé direito - dizia afundando bem o calcanhar - e trago a primavera. Piso com o esquerdo - lá ia o outro pé marcando a terra -e vem chegando o verão. Cada passada minha faz uma flor, um fruto, uma semente.
Ria vendo girar as pás do moinho de vento.
- Coisinha de nada - dizia-lhe - se o vento acabar, você morre. Eu não, eu sou meu próprio vento. Sou eu que comando a ordem de tudo, que faço a hora do sol, e marco a noite da lua. Eu que empurro este mundo todo para a frente.
Essa tinha sido sua razão para andar. Mas agora, tantas luas acumuladas no seu rastro, tantas frutas desfeitas no chão, já não lhes via a graça. Pois nada havia à sua frente que não conhecesse.
Só uma coisa não conhecia. Parar.
Foi pensar na palavra, e estremecer de susto. Nunca antes essa idéia tinha estado com ele. Pela primeira vez desde a alegria, percebeu que tropeçara em algo novo.
Parar, seria possível?
- Mas se eu parar - pensou - os filhos não se acabam no ventre das mães, os passarinhos nos ninhos não aprendem a voar.
E continuo andando.
Mas a idéia seguiu caminho com ele, mais tentadora a cada passo. E o Tempo começou a olhar o mundo com outros olhos, procurando em todo lugar a sedução que o faria cometer tão grande audácia.
Olhou a cachoeira. Imaginou-se ali, os pés metidos na água fria, ouvindo para sempre o canto transparente.
- Mas seu eu parar, pára a água, - pensou num susto - a canção emudece. Não terei mais o que ouvir, nem onde molhar os pés. E triste, tocou as pernas para a frente, uma depois da outra, como sempre.
Olhou a floresta. Pensou o bom que seria deitar naquele musgo rasgado de sol. E já se via quase lagarto, quando lembrou que as árvores parariam de crescer, as folhas parariam de mexer, o sol pararia de brilhar. E levantando os joelhos com cansaço e tédio, foi adiante.
Chegou ao deserto. - Enfim, um lindo mundo parado ! - exclamou. Mas da crista das dunas o vento soprou areia em seus olhos, e ele percebeu que nem ali poderia ficar. E foi ao mar, e viu as ondas. E passou pelo lago, e viu os peixes. Tudo se movia. Tudo, pensou, estava preso à rede que trazia nas costas.
Até chegar ao vale. Liso, lindo, lento vale.
Águas se perseguiam entre lago e regatos, espigas balançavam a cabeça jogando grãos ao vento, flores se voltavam para o sol. Ali também, no mesmo movimento, nada estava parado.
- Pois eu estarei ! - exclamou súbito o Tempo, reconhecendo naquela paz todo o seu desejo.
E aos poucos, suspiroso, temendo a própria coragem, espraiou-se no vale, estendeu-se longo como ele mesmo não sabia ser. E pela primeirva vez descansou.
Céu acima, doce grama embaixo, ainda esperava porém o desastre, o enorme desabar da ordem. E alisava o pêlo daquele chão, finas hastes e talos, para levá-lo na memória das mãos quando fosse preciso levantar-se e recomeçar a marchar para sempre, em castigo por aquele momento de fraqueza.
Silêncio no vale.
Acabou-se - pensou, esmagado de culpa - tudo parou. - A luz do solpareceu escurecer.
-É o fim, - e entrefechou os olhos.
Mas chegou um mugido de longe, estremeceu um coelho no mato, uma folha caiu.
Para surpresa do Tempo, movia-se o mundo.
- Não sou eu, então, que carrego isso tudo ? - perguntou-se intrigado, sentando.
E debruçado para olhar de perto o mundo pequeno que nunca tivera tempo para olhar, viu o grilo saltar vergando fios de grama, viu o escaravelho marcar sua passagem rolando a bola de esterco, a serpente escorrer em curvas, cada um no seu ritmo, avançando, tecendo a rede que ele acreditava segurar as pontas.
E ali, inclinado sobre a vida, descobriu aquilo que nunca suspeitara. Não era ele com seus passos que ordenava tudo, que comandava o salto do grilo, o vento na espiga, as pás do moinho. Mas eram eles, grilo e espiga, cada um deles que, com seus pequenos movimentos, faziam os passos do Tempo.
Então abriu as mãos, soltou a carga que acreditava carregar, deitou a cabeça. Serena, a nuvem se afasta. O sol volta a desenhar sombras.
No colo do Verde vale, dorme afinal o Tempo, enquanto filhotes amadurecem nos ovos.
(Doze Reis e a Moça no Labirinto do Vento - Marina Colassanti).

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